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Ter boas respostas para tudo não adianta. Para criar o futuro, é preciso pensar em novas indagações.
Depois de dez anos analisando processos e metodologias de inovação, trabalhando com gurus do setor, o físico Kip Garland chegou à conclusão de que continuava com mais perguntas do que respostas. Chegou também a uma única certeza. “Quando vejo o conteúdo de eventos, de revistas de negócios, percebo que estamos dando ótimas respostas, mas às perguntas erradas”, afirmou durante sua palestra Inovando
conceitos e negócios, no painel Inovação & Sustentabilidade: ambiente interno e externo, na IX Conferência Anpei. Para o consultor, “precisamos fazer diferente.” Fazer diferente, para ele, é realmente parar de procurar
por respostas e passar a criar novos questionamentos. São as perguntas novas, que surgem de enxergar os
problemas ou mesmo o mundo de uma forma nova, que podem criar uma perspectiva diferente para o processo de inovação. “Temos metodologias, incentivos, teorias, sistemas demais”, disse Garland, um dos diretores da consultoria Innovation Seed. Aos participantes da Conferência, Garland mostrou uma fotografia do espaço profundo, feita em maio pelo telescópio Hubble, a 34 bilhões de anos-luz, o mais longe que o ser humano já enxergou. Mostrou também outra fotografia, feita alguns meses antes, da primeira fábrica
da General Motors, publicada na capa do New York Times. Surpreendentemente, não havia nenhum automóvel em parte alguma no pátio do que há pouco tempo era a maior montadora do mundo. “O ser humano enxerga 34 bilhões de anos-luz à frente, mas uma grande empresa automobilística de um dia para outro não tem mais carros”, observou. Mas o que têm as duas imagens a ver com inovação e sustentabilidade? Para Kip Garland, a questão é que não podemos continuar olhando para o passado como forma de projetar o futuro, pois chega um dia em que algo diferente ocorre, e aí não temos como reagir de maneira adequada a essa nova informação. “Temos práticas cada vez mais refinadas baseadas no passado e projetadas no futuro. Quando o passado não combina com o futuro, temos surpresas, temos a GM, bancos, crise.”
Romper perspectivas
O conhecimento que adquirimos com o passar do tempo é passivo, disse, mas o ser humano é inovador em essência. “Nos últimos 50 mil anos, o homem vem fazendo inovações, mesmo sem incentivos, financiamentos, sem a ajuda de governos. Quando rompemos as perspectivas já estabelecidas é que criamos inovação. Quando alguém um dia, invés de temer o fogo, resolveu domá-lo, mudou completamente a balança do poder. O ser humano passou a ter poder não só sobre o fogo, mas em relação a seu próprio ambiente, afugentandoanimais, por exemplo”. Para o palestrante, “a história mostra que a inovação vem sustentando este planeta e esta raça esquisita que somos nós”, afirmou. Na opinião de Garland, a inovação acontece não por causa da prática, da experiência, mas porque alguém enxerga uma nova perspectiva. Foi assim em relação à caça, à agricultura. “Temos ótimas respostas para os problemas que conhecemos. A questão hoje em dia é identificar a pergunta mais certa”. Garland acredita que a grande ameaça para as grandes empresas é que “elas estão otimizadas para dar respostas, mas não para criar novas perguntas”, provocou o consultor, para quem essa é, em parte, a função dos profissionais de P&D. “A GM sempre foi inovadora, a empresa que mais gastava em pesquisa, tinha processos e cultura de inovação. O que deu errado? Sempre projetava o futuro baseada no passado”, sentenciou. Para Kip Garland, exemplo de como temos ótimas repostas para as perguntas erradas é o carro Tata, indiano. “Barato, respondia aos anseios de cada cidadão indiano, que tinha o sonho de possuir um automóvel, uma definição de sucesso como no Brasil, por mais pobres que as pessoas sejam. Faz parte dos três Cs que todos desejam: casa, cargo
e carro. Mas algumas semanas depois de adquirir o seu Tata, os indianos já haviam batido em outros três automóveis. O carro é o pior meio de transporte na Índia, com suas ruas abarrotadas e motoristas sem experiência”, observou Garland, para quem “o Tata foi uma nova resposta, quando era preciso fazer uma nova pergunta”. “Como ter perspectivas mais sustentáveis se nossas perguntas estão cada vez mais envelhecidas? Precisamos de processos muito diferentes, abordagens diferentes. E de novas lentes para fazer isso”, disse. Para Garland, a área de P&D no Brasil tem a grande oportunidade de mudar as perguntas. Na sua avaliação, em geral 99% dos esforços de inovação já começam com o produto. Mas seria preciso mudar essa perspectiva, “parar de pensar no produto e criar um espaço maior, um ‘além’, uma proposta de valor”. Por exemplo, pensar em inovação tecnológica de uma caneta esferográfica ou pensar no negócio, no mercado? “Qual a pergunta que precisamos fazer para o futuro da pesquisa e desenvolvimento no País?”, concluiu.
Fonte: REVISTA ENGENHAR O jornal da Inovação - Edição n°3 julho/agosto 2009
ANPEI Associação Nacional de Desenvolvimento das Empresas Inovadoras


